da Beira ao Alentejo

Janeiro 02 2012

 

 

 

O açude insuflável de Abrantes.  

 

 

A notícia a que recorri já tem quase dois anos, mas mantém-se tão actual que é como se fosse de hoje mesmo.

http://www.omirante.pt/noticia.asp?idEdicao=54&id=36877&idSeccao=479&Action=noticia

 

No final do texto da notícia, surge esta pérola:

"Ainda assim", afirmou Maria do Céu Albuquerque, "o açude foi construído com um fim específico que é o de servir o turismo activo e de lazer", tendo assegurado "estudar a possibilidade" de manter o açude em baixa "desde que a barragem de Belver também permita um caudal e um espelho de água constante".

 

Ou seja: acima de qualquer outra consideração, está o "espelho de água". Remete-se para a Barragem de Belver a responsabilidade de manter um caudal mínimo que, com o açude em baixo, permita manter esse mesmo espelho de água. Isto é algo impossível, como sabemos, e todos nos recordamos de como era aquela zona antes do açude. Nunca ali existiu algo que se parecesse com o actual espelho de água. Subindo o nível do rio, por aumento do caudal, crescia também a velocidade da corrente. Baixando um pouco o caudal, o que se via era um areal e um fio de água. E as descargas da Barragem de Belver são feitas segundo as necessidades de produção de energia e as disponibilidades de água na albufeira, que por sua vez dependem do caudal libertado pela Barragem de Alcântara, em Espanha, e, em menor medida, do funcionamento das barragens de Cedilho e do Fratel.

 

Das duas, três: ou o jornal transcreveu mal as palavras da senhora presidente, ou eu percebi mal, ou tais declarações são apenas um belo exercício de cinismo por parte de quem apenas se preocupa com o seu cantinho e os outros que paguem as favas.

 

Os pescadores bem pediram, mas não foram servidos:

 

«Neste contexto, os representantes da comunidade piscatória pediram recentemente à presidente da Câmara de Abrantes para que mantenha as comportas do açude "abertas" entre os meses de Dezembro e Maio, "já a partir deste mês", para que o peixe siga o seu percurso tradicional e chegue à aldeia ribeirinha.» (na notícia acima referida)

 

 

 

 

 

Esta foto é da semana passada. O espelho de água está lá.

 

O que não está, no rio, na zona a montante, são os peixes.

 

Os pescadores não foram ouvidos.

 

Não parece que a Câmara possa ignorar estes problemas, pois houve vereadores que alertaram para eles nas reuniões do executivo municipal:

 

http://amar-abrantes.blogs.sapo.pt/198512.html

 

(Sabe-se que as palavras dos vereadores das oposições costumam encontrar ouvidos moucos, mas isto está escrito.)

 

Nesta outra notícia, ainda do tempo do anterior presidente e “pai da criança”, já se falava de alguns problemas:

 

”o que acontece é que esta obra não está a permitir a circulação dos peixes da zona a jusante do açude para a zona a montante, pois a passagem é muito curta para uma diferença de cota na ordem dos quatro metros”.

 

http://www.jornaltorrejano.pt/edicao/noticia/?id=4364&ed=686

 

Este blogue andou a batalhar sobre o tema e outros relacionados:

 

http://caporcausas.blogspot.com/ http://caporcausas.blogspot.com/2010/06/cultura-da-pesca-tradicional-no-rio_27.html

 

Uma coisa que eu gostava de saber é se há alguma relação entre este açude e uma eventual proteção à atividade de extração de inertes que é praticada no local. Com efeito, existem ali duas pontes (uma rodoviária, outra ferroviária), sendo que ambas são de construção semelhante à de Entre-os-Rios, a que causou uma tragédia quando caiu, ao que parece devido a importantes alterações no fundo arenoso do rio, provocadas precisamente pela excessiva e descontrolada extração de areias. O açude poderia ajudar a proteger as fundações das pontes, sem pôr em causa a continuidade da extração de inertes. Mas isto já seria especular…

 

A cidade de Abrantes não é dona do rio Tejo. Tem o direito de usufruir dele, mas, no exercício desse direito, não pode colocar em causa o equilíbrio ecológico do próprio rio.

publicado por Luiz às 22:11

Dezembro 29 2011

 

http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2011/12/27/jovem-caiu-nas-cataratas-de-bal-couvo-em-gaviao-sofreu-ferimentos-graves-e-foi-resgatado-com-sucesso


 Agora, que o pior já passou, talvez já "não pareça mal" fazer alguns considerandos, não apenas sobre o tema central da notícia, mas também noutros âmbitos a propósito dela.

Os feridos já foram resgatados, os seus ferimentos não eram, felizmente, tão graves quanto pareciam a princípio.


Fica uma lição a extrair (eventualmente entre outras): a irresponsabilidade sempre foi e há-de continuar a ser, um fator de risco e, quando este se concretiza em acidente, também o é de custos para os envolvidos e para a sociedade em geral. Não se trata aqui de culpabilizar ninguém em especial. Nessa matéria, haja quem atire a primeira pedra. A irresponsabilidade (que terá estado na origem do acidente) também pode estar associada (por muito que haja quem não goste de o admitir) à brincadeira, à aventura, à juventude. É assim, como sempre foi e esperamos continue a ser. O que há que fazer é formação (em casa, na escola, nas associações e grupos) e prevenção (identificação, delimitação, arranjo e vigilância das zonas perigosas e seus acessos).


É curioso o impacto da designação do local tal como está no título e como foi referida (sem exceção que eu visse) por todos os OCS. Só hoje, no Correio da Manhã, é que já aparece uma grafia mais correta, Vale Côvo. Percebe-se perfeitamente que as informações transmitidas oralmente (ao telefone, rádio) possam resultar nesses desajustes ortográficos.
http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/nacional/portugal/podia-ter-sido-uma-tragedia

Os esclarecimentos do comandante dos Bombeiros, contidos na notícia, são importantes, porque alertam as pessoas para os riscos que podem correr ao acederem inadvertidamente a estes locais potencialmente perigosos.


E tivemos aqui um exemplo da abnegação destes soldados da paz, que arriscaram a sua integridade física no cumprimento dos trabalhos de resgate e são, por isso, merecedores da nossa homenagem.


O caso deu-se numa zona relativamente desconhecida do centro de Portugal. Há quem já lhe chame sul, mas isso é outra questão. Basta ver o mapa. Sabe-se que o vértice geodésico da Milriça está situado a 2km a NNE de Vila de Rei e o centro geográfico (melhor dizendo: geométrico) não estará muito longe dali, segundo diversos cálculos. O local do acidente (as famosas "Cataratas do Bal Couvo") está a apenas 30/31km a SE do vértice geodésico de Vila de Rei, junto ao rio Tejo, na margem esquerda. Em resumo: fica junto ao Gavião. Daí ser centro e não sul. Diz-se que é sul por estar situado no Alentejo.


Aproveitando a notoriedade do sucedido, sugere-se que as características "radicais" deste sítio sejam aproveitadas (se é que isso não está já previsto) para eventual articulação com rotas pedestres a passar naquela zona ou com a própria utilização da albufeira da barragem. Está aliás em andamento um projeto bem próximo (percurso pedestre e moinhos das ribeiras das Barrocas e de Alferreira).


Sabe-se, até, que a Câmara está a trabalhar nisso, como se pode ver por esta acta:
http://www.cm-gaviao.pt/municipio/camara_municipal/actas/acta_201111.pdf 




A propósito: onde é que ficam exatamente as cataratas (talvez cascatas?) de Vale Covo?

publicado por Luiz às 08:26

Julho 13 2011

 

 

A foto acima foi obtida em 2007, na zona de Badajoz.

O tamanho dos 3 exemplares que se encontram em cima do camião deve dar uma ideia da sua antiguidade.


publicado por Luiz às 01:09

Julho 08 2011

Por estes dias, deu-se destaque a uma oliveira existente em Santa Iria de Azóia, que foi considerada a mais antiga em Portugal.

 

http://www.boasnoticias.pt/noticias_%C3%81rvore-mais-velha-de-Portugal-tem-2850-anos_7176.html

 

No texto do artigo, pode ler-se que o método de cálculo aplicado pelos investigadores da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) para determinar a idade destas oliveiras muito antigas e ocas “permite datar as árvores através de um modelo matemático que relaciona a idade com as características dendrométricas do tronco (raio, diâmetro ou perímetro). Desta forma é possível proceder à sua datação por um processo extremamente rápido, não destrutivo e exequível mesmo em árvores ocas”.

 

Na freguesia de Mouriscas, concelho de Abrantes, existe uma oliveira capaz de competir com a de Santa Iria. E, por sinal, trata-se de um exemplar classificado de interesse público:

 

http://www.afn.min-agricultura.pt/portal/gestao-florestal/aip/avisos-2007-class-desclass/aviso-04-2007

 

Tenho algumas fotos dessa oliveira, como, por exemplo, a que apresento:



A localização exacta, no GoogleMaps, é a seguinte:

 

http://tinyurl.com/6jpp7q5

 

Se as dimensões do tronco servem como indicador para calcular a idade destas oliveiras, tal como foi feito para a de Santa Iria de Azóia, então a de Mouriscas terá (pelos cálculos feitos sobre a foto, e tendo como escala a altura da pessoa que nela figura e na ausência de medição directa) um diâmetro na base de cerca de 12 metros. A de Santa Iria tem 10 metros, medidos também na base.

 

Assim, a confirmarem-se as medidas estimadas, a ser válido o método de cálculo dos investigadores da UTAD e admitindo que as condições climáticas eram semelhantes nos dois locais, a árvore de Mouriscas seria mais antiga.



NOTAS:

(1) Por motivo de privacidade, encontram-se ocultos, na foto, o rosto da mulher e a matrícula do carro.

(2) Este post NÃO foi escrito segundo o novo Acordo Ortográfico.


Julho 08 2011

 

"Quem dá e torna a tirar, ao inferno vai parar".

 

É o ditado. Mas, neste caso que está a dar que falar por estas bandas, bem vistas as coisas, nem sequer se aplica...

 

Já nem os provérbios são o que eram...

 

O que fica por saber é quem deveria ir para o inferno.

 

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Para alguém mais curioso, sempre adianto que é um caso semelhante, pela sua natureza, a este outro:

http://economia.publico.pt/Noticia/camara-de-elvas-exige-a-funcionarios-reposicao-do-dinheiro-de-aumentos-salariais_1461571


Julho 07 2011

Mais vale tarde que nunca, diz o ditado.

 

Vem esta a propósito de um pedido de desculpas que é devido (espero que com juros comedidos) aos Exmºs amigos que tiveram a paciência de continuar a recomendar-me.

 

Eu, pela minha parte, por lá tenho passado a visitar, ainda que geralmente entrando mudo e saindo calado.

 

Não há-de ser nada...

 

E promessas tímidas de maior assiduidade, aqui.

publicado por Luiz às 01:15

Novembro 18 2010

 

Recompilação, reduzida e adaptada, do excelente trabalho de recolha de vocábulos e expressões populares,apresentado pelo Sr. João Manuel Maia Alves, no seu blog MOURISCAS - TERRA E GENTES, a quem agradeço a gentileza de me ter autorizado o seu uso.

 

Recomendo a leitura deste blog, não na simples forma de agradecimento, mas por entender que se trata de um importante testemunho das realidades, presentes e passadas, daquela terra.

 

Mouriscas e Belver distam escassos quilómetros entre si. Estão na mesma margem direita do Tejo, separadas apenas pela freguesia da Ortiga. É pois natural que as gentes de ambas as terras tenham partilhado muito linguajar comum.

 

Retirei todas aquelas expressões que não me recordo de ter ouvido na minha terra, a maior parte delas por fazerem referência expressa a realidades locais..

 

De resto, as alterações efectuadas são de pormenor, acrescentando algum sentido imposto pelo uso que eu conheci.

 

 

 

 

ACORDAR MOSCAS QUE ESTÃO A DORMIR – Trazer à conversa assuntos que não devem ser recordados ou discutidos. Relembrar assuntos que não convém referir. (Não lhe fales das zangas que ele teve com a família. Não acordes moscas que estão a dormir.)

 

ADEUS – Cumprimento de encontro de pessoas, que pode também ser usado nas despedidas. (Adeus comadre! Há muito tempo que a não via. Estimo muito vê-la.)

 

ADOQUE (pronunciado àdoque) – Atabalhoadamente, à pressa e imperfeitamente, de qualquer maneira. (Esta parede ficou muito mal rebocada. É mesmo um trabalho feito adoque.) Depois da revolução de 25 de Abril de 1974, muita gente ficou confusa porque começou a ouvir falar de coisas como “exames ad hoc” e “comissões ad hoc”, expressões que pareciam não ter relação com trabalhos feitos à pressa e mal. “Ad hoc” é uma expressão latina que significa “para isto”, isto é “para determinada função ou missão”.

 

AINDA BEM NÃO – Brevemente, dentro de pouco tempo. (Ainda bem não é noite. Ainda bem não é Inverno. Ainda bem não é a hora do comboio.)

 

ALBARDAR – Aturar, suportar. (Ele albarda aos filhos tudo o que eles querem fazer.)

 

AMOROSO – Suave, agradável (falando do tempo). (De dia esteve muito calor; mas agora o tempo está amoroso e apetece estar na rua.)

 

ANDAR AOS SABIDOS – Deixar de trabalhar e passar a viver rotativamente em casa de parentes. (Ele deixou de se ver; anda aos sabidos por casa dos filhos.)

 

ANDOR! – Usado para mandar alguém embora ou para indicar que deve ou pode ir-se embora. (Ele não se sente cá bem e quer voltar para a terra dele? Então, andor! Não faz cá falta nenhuma.)

 

ANECRAL – Lacrau. (Foi mordida por um anecral que estava debaixo dum molho de feno.)

 

ANECRIL – Alecrim. (Noutros tempos quando nascia uma criança faziam-se defumadouros de anecril para afastar maus espíritos.)

 

ARGANEL – Gancho metálico espetado no focinho do porco para o impedir de fossar (também abreviado para anel).

 

ARMADO AO DINHEIRO – Diz-se de objecto posto à venda e de utilidade duvidosa. (Acho que essa máquina de fazer bolos é uma coisa armada ao dinheiro.)

 

ARRANÇAR – Portar-se como rançoso. (Quando soube que tinha de pagar a dívida do filho, fartou-se de arrançar.)

 

ARRANÇAR – Ralhar ou zangar-se. (Andam sempre a arrançar um com o outro.)

 

ARRANHOSAR – Portar-se como ranhoso. (Não deu nada para o peditório e ainda se fartou de arranhosar.)

 

ASTRO – Firmamento, céu. Abóboda celeste. (Ontem à noite o astro estava todo vermelho.)

 

ATAR UM CALDEIRO AO RABO – Receber com hostilidade, afugentar. Esta expressão provém do cruel costume de se atar um caldeiro (balde de lata) à cauda dum cão para o afugentar de modo a não voltar a um lugar. (Que é que ele cá veio fazer? Deviam era ter-lhe atado um caldeiro ao rabo.)

 

ATÉ DEPOIS! – Até uma data posterior, até mais ver, até à próxima, adeus. (Estimei vê-lo com saúde. Até depois!)

 

ATENTAR – Aborrecer, importunar. (Quando ele era pequeno, atentavam-no com a alcunha de “Zé da Burra”.)

 

ATIRAR FOGO – Gabar-se. (Tem-se fartado de atirar fogo com a nomeação do filho para um cargo importante.)

 

AVENTAR – Atirar fora. (Aventa isso, que está sujo. Ele aventou para a rua uma data de cadeiras velhas.)

 

AVEZADO, AVEZAR – Acostumado, habituado; acostumar, habituar. (Ele está mal-avezado; não quer trabalhar. Este cão avezou-se a esta casa e está sempre aqui.)

 

BARATA A FEIRA – Expressão para indicar que qualquer coisa custou pouco dinheiro. (Esta boina custou 50 escudos. Barata a feira!...)

 

BARBILHO – Bocado de madeira colocado na boca de borrego ou cabrito e preso atrás da cabeça para o impedir de mamar durante o desmame.

 

BARDA – Mancha no céu. (Ontem havia uma barda vermelha no céu. Tenho a impressão de que vamos ter mais calor.)

 

BELICOSO – Exigente com a comida. (Este miúdo é belicoso com a comida. Em tudo põe defeitos e não gosta de quase nada.)

 

BOCHA – Palavra usada para chamar um cão. (Bocha, bocha, bocha! Anda cá bocha.) Cão, falando com crianças. (Faz um festinha ao bocha.)

 

BOM ARRANJO – Ter um bom arranjo era ter bens. Como comentário a namoros e casamentos era habitual ouvir-se frases do género “os dois têm um bom arranjo”.

 

BORCELO – Bocado que se partia de uma caçarola de barro ou alguidar. O remendo era feito com dois ou três gatos. (Tenho que guardar este borcelo para mandar pôr ao caldeireiro quando ele por aqui passar

 

BORRACEIRA – Nevoeiro. (Está uma borraceira que não deixa ver nada.)

 

BOTICA – Farmácia, medicamento. Estes significados estão hoje esquecidos. (Ele tem andado a tomar botica para a doença. Comprei na botica um remédio para a tosse.)

 

BOUZILHÃO – Inchaço. (Caiu sobre uma pedra e ficou com um bouzilhão nas costas.)

 

CABEIRO – O mais afastado. (Isso está no quarto cabeiro.)

 

CABRESTO – Indivíduo que desinquieta outros para irem divertir-se. (Precisas de estudar e devias ficar em casa a estudar, mas já aí estão os cabrestos para te levaram para ir ver o jogo da bola…)

 

CAÇOLA – (de caçarola)Vaso de barro estreito em baixo, largo em cima e pouco alto, usado para cozer ao lume.

 

CAÇOLADA – Conteúdo duma caçola. (Nos casamentos de antigamente faziam-se grandes caçoladas de carne. Aquele gato dava uma grande caçolada.)

 

CAFÉ – Primeira refeição, pequeno-almoço. (Ainda não comeste nada e deves estar com fome. Anda beber o café.)

 

CAGARRACHO – Pequeno. (É um cagarracho. Não sai ao pai, que é um homenzarrão.)

 

CANGALHADA – Confusão, enredo, assunto mal encaminhado. (Já sabia que isto ia acabar mal… Olha a cangalhada!...)

 

CANGALHADA – Palavra de uso muito corrente, significando coisa, em geral de pouco valor. (Mas que cangalhada é essa? Ele anda sempre a comprar cangalhadas para casa; algumas não servem para nada.)

 

CARUJAR, CARUJO – Cair chuva miudinha, chuva miudinha. (Tem estado a carujar toda a manhã.)

 

CHAPÉU-DE-CHUVA SEM VARETAS – Pessoa de pouco préstimo. (É muito vaidosa, mas não passa dum chapéu-de-chuva sem varetas.) Também usado no sentido de atrevido.

 

CHAZADA –  (pron.: chàzada) Reprimenda. (Deu uma chazada aos vizinhos por não o terem deixado dormir com o barulho da festa.)

 

CHIA – Fanfarronice, lábia, conversa. (Ele tem muita chia; gostava era de o ver a trabalhar.)

 

COM OS BOFES NA MÃO – Cansado. (Quando começou a chover desatou a correr e chegou a casa com os bofes na mão.)

 

CONVENIÊNCIA – Usado para designar exactamente o contrário, algo que vai trazer maçadas ou não tem vantagens. (Fulano procurou por ti; deve ser para alguma conveniência. Vi a noiva de fulano; não deve ser grande conveniência.)

 

COPA – Gente de má qualidade. (Copa daquela não faz cá falta. Ainda bem que se foram embora. Aquilo era copa ruim.)

 

COPA – Roupa. (A noite passada estava muito frio. Tive de pôr mais copa na cama.)

 

CORRECÇÃO – Actividade de corrécio. (Ele passava o tempo das férias de verão na correcção.)

 

CORRÉCIO – Vadio. (Quando ele era novo, era um corrécio; ia a todos os bailes e festas das terras à volta.)

 

DAR BOAS ÁGUAS – Dar esperança, uma perspectiva optimista. (Ele foi perguntar ao cunhado se lhe queria comprar a casa. Parece que o cunhado lhe deu boas águas.)

 

DAR COM (ALGUMA COISA) EM BARREIRA – Resolver, solucionar. (É complicada esta avaria. Não sei se conseguiremos dar com isto em barreira.)

 

DAR OS DIAS SANTOS - Mandar. (Lá em casa ela é que dá os dias santos.). A origem da expressão deve vir de se pensar que o padre é que decidia que dias se deviam guardar como santos.

 

DE RANGAMALHO – De rojo, arrastando pelo chão, aos trambolhões. (Ele trouxe a lenha de rangamalho.)

 

DERREGAR - Derreter. (Este acúcar está muito duro; não se derrega no café. O sol derregou o gelo.)

 

DESALVORAR – Fugir. (Não assustes a mula, senão ela desalvora.)

 

DESASSEMELHO – Com aspecto ridículo. (Que desassemelho é esse? Vens aí com a roupa cheia de palha. Nos casamentos de gente fina aparecem sempre muitos desassemelhos.)

 

DESENCABRESTARDesinquietar para ir a divertimento. (Bem precisas de estudar, mas já aí estão os do costume para te desencabrestar para a bola.)

 

DESENCULATRAR-SE – Sair da posição correta. (Os alcatruzes desenculatraram-se e a nora não os consegue puxar.)

 

DESINQUIETAR – Levar ou tentar levar alguém a proceder de certo modo. (Desinquietaram-no para trabalhar no Porto. Ele desinquietou-me para ir a uma excursão ao Porto. Devia estar a estudar, mas vieram desinquietá-lo para ir jogar a bola.)

 

DESINQUIETO – Irrequieto, traquinas. (É um miúdo muito desinquieto.)

 

DIABALMA – Homem. (Olha para aquele homem. Que grande diabalma!) (Vinha ele e outro diabalma mais ele.)

 

DIABO, DIABA – Fulano, fulana. (Ele casou com uma diaba de Alter do Chão.) Estas palavras não têm sentido pejorativo, mas usam-se de modo muito informal. Ninguém diria numa audiência, por exemplo, que era casado com uma diaba de Lisboa.

 

É COMO A CALDEIRA DO INFERNO; QUANDO NÃO ESCALDA, MASCARRA – Usa-se para indicar que alguém anda continuamente a praticar maldades ou traquinices.

 

É COMO LAVAR A CARA A UM BURRO – Ser inútil. (Ralhar com ele ou dar-lhe conselhos é como lavar a cara a um burro. Não tem emenda.)

 

É COMO O OUTRO – Não tem importância. (Lá que me chamasse tonto é como o outro... Agora chamar-me ladrão é que não posso aceitar.)

 

É IMPORTANTE! – Exclamação usada para indicar espanto. (Ele trata mal toda a gente e ainda se queixa de ninguém gostar de falar com ele. É importante! Olhem que isto é importante! Deixou os animais toda a noite a apanhar chuva.)

 

EM ACÇÃO DE – Pronto para (matar para alimentação, semear, colher, etc.) (O porco está quase em acção de matar. A azeitona já está em acção de apanhar.)

 

EM BEM NÃO - Desde que não; enquanto não. (Em bem não lhe calhando as coisas ao jeito, farta-se de ralhar.)

 

EMPEGILHO, EMPEGILHAR – Estorvo, estorvar. (Estás aí no chão feito empegillho. Sai daí, empegilho, para a gente passar.) O mesmo que empecilho.

 

ENCAFUAR – Meter. (Desde que se reformou passa a vida encafuado em casa. Veio viver para cá, mas ninguém o vê porque se encafuou lá no buraco.)

 

ENCRENCA – Pessoa velha ou fraca. (Já não presto para nada; estou feita uma encrenca. Não tens forças nenhuma, minha encrenca!...)

 

ENDIREITOS – Direcção, proximidades. (Quando cheguei aos endireitos do moinho vi um bando de patos a voar.)

 

ENTREGAR – Manter-se em pé ou na posição vertical (Estava tão bêbado que nem entregava em pé. Este cântaro está gasto por baixo e não entrega.)

 

ENTRUNFAR – Amuar, ficar aborrecido. (Ele ficou entrunfado quando o pai não o deixou ir jogar a bola no domingo passado.)

 

ERVILHANA – Amendoim.

 

ESCALAMEJAR – Escaldar. (Não metas as mãos nesta água que está a escalamejar.)

 

ESCALAMEJAR – Estar excessivamente salgado. Este bacalhau não se pode comer. Está a escalamejar com sal!)

 

ESPOJINHO – Pequeno remoinho de vento nos meses de verão, muitas vezes atribuído a almas desencarnadas. Sítios onde se tinham enforcado pessoas eram considerados atreitos a espojinhos. Pequeno tornado.

 

ESTAFAR – Gastar mal gasto, esbanjar. (Em pouco tempo estafou todo o dinheiro que o pai lhe deixou.)

 

ESTAR DE VOLTA DE – Estar ocupado com. (Ele tem estado toda a manhã de volta do motor, mas ainda não conseguiu pô-lo a tirar água

 

ESTRAFEGA – Trabalheira, actividade que envolve muito trabalho e canseira. (Dantes os casamentos eram uma grande estrafega.)

 

ESTUDO CABANAL – Boémia, boémia estudantil. (Alguma vez ele fez o liceu! O estudo dele foi o estudo cabanal.)

 

EXTRAVAGANTE – Gastador. (É um extravagante. Mal recebe dinheiro gasta-o logo.)

 

FALAÇADA ou FALAZADA– Ruído de pessoas a conversar. (Toda a noite se ouviu uma falaçada na rua.)

 

FALAR PARA – Namorar. (Ele fala para a prima. Os pais não gostam do namoro, porque queriam que o filho casasse com uma mulher rica.)

 

FAZER FIGURAS – Fazer uma figura ridícula. (Esse fato tem nódoas e falta de botões. Não andes para aí a fazer figuras.)

 

FEIJÃO-PRETO – Na maior parte do país chama-se feijão-frade.

 

FEZES – Problemas, complicações. (Os filhos são uns bêbados. Só lhe têm dado fezes.)

 

FILHOTE – Natural, oriundo. (Ele não nasceu cá. É filhote de Tramagal.)

 

FOXE – Lanterna eléctrica. (Noutros tempos, antes da iluminação pública, um foxe era muito útil para andar de noite. Antigamente uma das ambições dos miúdos era possuírem um foxe, muito útil para encandear os pardais, nas caçadas nocturnas.). Também costumava chamar-se uma pilha (por funcionar a pilhas).

 

FRUTO – Coisas semeadas numa horta. (O fruto está cheio de sede. É preciso regá-lo bem.)

 

FULESTRIA – Proeza. Usa-se ironicamente, isto é para diminuir o valor do que alguém fez ou conseguiu. (Que grande fulestria ele ter comprado a pronto aquela casa grande! O pai deixou-o cheio de dinheiro.)

 

GABAR – Achar que se deveria fazer. (O que eu gabava era obrigá-lo a trabalhar para pagar o que roubou.)

 

GALHARDO – Usado em situações caricatas ou difíceis, em que bonito ou lindo também se poderiam utilizar. Por exemplo, um indivíduo está molhado, bêbado ou sujo e alguém comenta ‘estás galhardo!´. Ou então um carro não pega e está atolado e alguém diz ‘ela está galharda!’(ela, a situação).

 

GRAVE – Exigente com a comida. (Ai, não comes o feijão? És muito grave…)

 

IGNORAR – Estranhar, repudiar. (Ignoro aquela maneira de proceder.)

 

INFLUÊNCIA – Entusiasmo. (Depois da tropa ganhou influência pelos estudos e fez o liceu em poucos anos.)

 

JÁ NÃO OUVIR CANTAR O CUCO – Viver pouco mais tempo. Não durar até ao fim do inverno. (O canto do cuco, repetitivo e agudo – cucu, cucu, .... - ouve-se no fim do inverno, começo da primavera. Há um provérbio que diz “Dia de S. José e o cuco sem vir, ou ele é morto ou está para vir.”) (Ele está muito doente. Já não deve ouvir cantar o cuco.)

 

JUDEU, JUDEU MALINO – Miúdo traquinas. Note-se que isto é usado sem qualquer intenção de ofender os judeus. (Este judeu não deixa nada sossegado. Está quieto, oh judeu malino!)

 

JUDIARIA – Traquinice. A palavra é usada sem qualquer intenção de ofender os judeus. (Quanto se juntam muitos moços pequenos, começam logo a fazer judiarias.)

 

LAMBANÇA – Barulheira. (Toda a noite fizeram uma grande lambança e não deixaram dormir as pessoas. Diz a toda a hora que tem um carro como ninguém tem; acho que já é lambança a mais.)

 

LAMBÃO, LAMBOEIRA – Preguiçoso. Preguiça. (Nunca fez nada. É um lambão. Em vez de cuidar das fazendas que lhe deixaram entregou-se à lamboeira.)

 

LANZEIRA – Preguiça. (Estou com uma lanzeira tão grande que nem me apetece levantar-me.)

 

LAVADURA – Restos de comida a que se acrescentavam coisas como bocados de abóbora e que serviam de alimentação dos porcos. (Este porco come num esfregar de olhos a lavadura que lhe dou.)

 

LAVARINTO – Barulheira, grande barulho. (Ele bateu na mulher. Ralharam. Os filhos choravam e berravam. Foi um lavarinto que acordou toda a gente.)

 

LEVAR O CABO – Morrer, secar. (Noutros tempos muitos porcos levavam o cabo por causa de doença. Com o calor as flores levaram o cabo.)

 

MAL-ANDAMOSO. Aplica-se a um caminho para indicar que se anda nele com dificuldade. (Dantes este caminho era mal-andamoso, principalmente na época das chuvas.)

 

MALTÊS – Vadio. (Quando ele era estudante, era um maltês; corria as terras à volta e raramente estava em casa durante as férias.)

 

MALTESARIA – Actividade de maltês. Grupo de malteses. (Ele raramente pára em casa; anda na maltesaria.)

 

MANEIRAS – Um pouco, um tanto. (Ontem choveu maneiras. Ela canta maneiras, não é grande artista.)

 

MANIENTO – Caprichoso, vaidoso. (É um miúdo muito maniento com o comer; não gosta de quase nada. Está um grande maniento depois de o filho ter entrado para a política.)

 

MARESIA – Tempo nublado e húmido em manhã da época de tempo quente. O verdadeiro significado da palavra é cheiro do mar quando a maré baixa. (E que tal esta maresia? Deixa, que daqui a bocado já aparece o sol e vamos ter outra vez um dia de calor. Manhã de maresia, tarde de calmaria.)

 

MARRADA – Espaço que fica por lavrar junto das árvores quando o terreno é lavrado com animais ou mesmo com tractor. Após a lavoura as marradas tinham de ser cavadas. (O pai não gostou das notas dele no colégio e pô-lo a cavar marradas.)

 

MASSEIRÃO – Pia escavada numa pedra de granito, feita de cimento, ou ainda de madeira, usada para colocar o comer dos porcos.) (O porco ainda não comeu tudo o que deitei no masseirão.)

 

MEDO – Aparição nocturna. (Noutros tempos diziam que aparecia aqui um medo.)

 

METER VENENO – Deteriorar relações, dando em segredo a uma ou mais pessoas informações ou incitando a certas acções. Fazer intriga.(Ela e a mulher começaram a dar-se mal quando a mãe dele foi morar com eles e começou a meter veneno.)

 

NA PONTA DA UNHA – Bem. (Não lhe falta nada; a vida corre-lhe na ponta da unha. Ficou bem feito, sim senhor. Ficou na ponta da unha.)

 

NÃO DAR CARREIRA DIREITA – Não se portar bem. (Ele não dá carreira direita. Trabalha pouco e gasta tudo em bebida.)

 

NÃO MERECE – Não tem de quê. Resposta a agradecimento. (Obrigado, tia Rosária, pela erva para os coelhos. Não merece, Maria.)

 

NÃO OUVES? NÃO OUVE? – Não é exactamente uma pergunta, mas uma introdução ao que se vai dizer ou perguntar, enfatizando.. Equivale a “escuta o que te digo” ou “escute o que lhe digo”. (Não ouve? Se fosse a si, comprava a casa do seu tio. Não ouves? Aquelas partilhas vão deixar todos zangados.)

 

NINGUÉM CUSPA PARA O AR – Ninguém diga que não lhe pode acontecer o mesmo, ninguém diga desta água não beberei. (Hoje é uma desgraça ter um filho drogado, mas ninguém cuspa para o ar.)

 

O QUER QUE É, O QUER QUE FOI – Coisa ou acontecimento indefinido, no presente ou no passado, respectivamente. (Ontem parece que houve brigas e discussões nas festas. Sim, ouvi dizer que houve lá o quer que foi. Parece que o seu pai quer que lhe vá lá fazer o quer que é).

 

OFENDER – Partir, romper. (Caiu mal e não lhe dói nada mas pode ter ofendido alguma coisa lá por dentro.)

 

OGAR (pronúncia: ògar) - Ficar perturbado ou incomodado por não conseguir comer, beber ou ter algo que se deseja. (Dê um bocadinho de bolo à menina para ela não ogar. Até ogavas se não comesses o bolo todo.) Regar ou borrifar com água. (É preciso ogar esta roupa quando estiver quase seca.Vai ogar os canteiros, antes que morram à sede!)

 

OLHAR CONTRA O GOVERNO, OLHAR CONTRA O SALAZAR – Ser vesgo ou estrábico, isto é não ter os olhos alinhados um com o outro.

 

OPOR-SE – Dispor-se, dar-se ao trabalho de. (Ainda não me opus a fazer isso. A gente às vezes não faz uma coisa mas não é por falta de tempo; é naquilo que a gente se opõe.)

 

ORDEM – Autorização. (Hoje não tens ordem de sair daqui. Quem é que te deu ordem de usares o meu relógio?)

 

PALHAÇA – Queda. (Ela escorregou e deu – ou caiu *- uma grande palhaça.)  *É frequente o uso da redundância.

 

PANCADISTA – Que tem pancada, mania, excentricidade. (Para onde quer que vai transporta à mão uma mala grande. Usa sempre um chapéu com abas muito grandes e óculos escuros. É pancadista de todo.)

 

PANTAR – Pôr. (No meu tempo trabalhava-se desde que o sol nascia até que se pantava.)

 

PAPEL DE COMÉDIAS – Situação cómica. (Passaram ontem o dia a discutir e chamar-se ladrões uns aos outros. Foi um papel de comédias.)

 

PAZ DE ALMA – Pessoa sossegada e pacífica. (É um paz de alma. Para ele está tudo bem.)

 

PEGANHOSO – Que pega (com). (Deixa o teu irmão sossegado; não sejas peganhoso.)

 

PEGAR (COM) – Meter-se, implicar, caçoar. (Depois de o clube dele perder o campeonato, toda a gente pegava com ele e dizia que era um clube

de coxos.)

 

PENDORA – Cacho de uvas pendurado para ser consumido mais tarde, às vezes passados vários meses depois da vindima.

 

PENSÃO – Trabalho, preocupação, cuidado. (O filho aconselhou-o a ter uma vaca, mas ele já tinha cabras e ovelhas e não quis arranjar mais uma pensão.)

 

PERIGO – Raio, no sentido de descarga eléctrica entre uma nuvem e o solo. (Caiu um perigo naquela oliveira e rachou-a.)

 

PROPÓSITO – Modos apropriados. (Senta-te com propósito. Não tens mesmo propósito nenhum.)

 

PUXAR PARA – Hospedar-se, ficar em. (Quando ele vem a à terra, puxa para casa do cunhado.)

 

QUARTA – Pequeno cântaro com asa. (Esta quarta faz a água muito fresca. Quando ele ia para o trabalho, levava sempre uma quarta com água fresca.)

 

QUE JEITOS? - Usa-se para indagar em que circunstâncias ocorreu um acontecimento. (Ele ontem partiu um braço. Então, que jeitos? Escorregou e caiu mal.)

 

RANÇOSO – Rabugento. (É um rançoso que não se pode aturar, sempre a queixar-se dos filhos.)

 

RANHOSO – De fraca qualidade, rabugento, de mau feitio. (Fez um trabalho ranhoso. É um ranhoso; ninguém gosta de trabalhar com ele.)

 

REZAM – Consta, dizem. (Rezam para aí que eles vão casar depressa. Não rezam bem da doença dele.)

 

SAPATA- Pata, pé, mão, sendo bastante grosseiros os dois últimos significados. (As sapatas das galinhas ficaram marcadas neste chão de cimento. O sogro proibiu-o de pôr as sapatas lá em casa. Não pegues no livro com as sapatas sujas.)

 

SARDINHEIRO – Homem que vendia peixe em venda ambulante. (Noutros tempos as pessoas tinham que se levantar cedo e esperar pelo

sardinheiro para comprar peixe.)

 

SER MAL-AMIGO (A) DE – Não gostar de, não apreciar. (Sou mal-amiga de carne de porco.)

 

SONARENTO – Mole, pouco ativo, sonolento. (Trabalha muito devagar; é um sonarento. O calor põe-nos sonarentos.)

 

SONGA-MONGA – Pessoa de poucas falas e que mostra pouca cordialidade. (Passa aí e quase não fala com ninguém. Está feito um songa-monga.)

 

SONHAR COM LADRÕES – Pensar em fantasias, sonhar com coisas pouco prováveis ou impossíveis. (Ele diz que o futuro sogro lhe vai comprar um carro do melhor que há. Deve estar a sonhar com ladrões.)

 

SORTE – Quinhão em partilhas. (Diziam que aquelas partilhas iam ser difíceis, mas afinal cada um ficou contente com a sua sorte. Já vendeu a sorte dele.)

 

TALOCA – Buraco. (Há pássaros que fazem o ninho em talocas de árvores. Este comer mete ele na taloca dum dente.)

 

TANGANHO – Ramo cortado de árvore e seco. (Fez uma fogueira com tanganhos para se aquecer.)

 

TESTÓ – Palavra usada para enxotar um cão. (Testó! Sai daqui cão!). Também usada para indicar rejeição duma proposta ou atitude. Equivalente mais ou menos a “dar para trás”. Aliás, muitas vezes a palavra “testó” usada neste sentido é acompanhada dum movimento para trás da mão. (Queria que lhe emprestasse dinheiro e pagava só para o ano. Testó!)

TOMATA – Tomate. (Estas tomatas são boas para salada.)

 

TREMPE – Pessoa desajeitada. (Não fazes nada com jeito. Estás cá uma trempe.)

 

TRIPEÇA – Banco de cortiça sem pés e com seis lados quadrados ou rectangulares.

 

TRUGIA – Coisas, coisas sem valor. (Esta casa está cheia de trugia. Mas que trugia é esta?)

 

UNTAR AS UNHAS – Gratificar para obter favor. (Viu-se atrapalhado para conseguir os documentos. Só quando untou as unhas a um funcionário é que o pedido começou a andar.)

 

VAI (VÁ) BALHAR (bailar) COM O DONO – Não me maces (mace). Vai (vá) à fava. (Oh pá! Deixa-me em paz. Vai balhar com o dono! Ele diz que tu não tens habilidade para árbitro de futebol. Eu quero que ele vá balhar com o dono.)

 

VARIADO, VARIAR – Tonto, ficar tonto. (Achas que o preço do azeite vai baixar? Deves estar variado. Ficou variado com tanto dinheiro que recebeu da lotaria. Bebeu dois copos de aguardente e já está a variar. Depois da morte da mulher ficou variadinho de todo.)

 

VIANDA –  (também pronunc. vienda)Comida dos porcos. O mesmo que lavadura. (Este porco come um tigelão de vianda enquanto o diabo esfrega um olho. O porco deve estar cheio de fome. Vou dar-lhe esta vianda.)

 

VIVOS – Animais domésticos. (Deixei os vivos todos tratados.)


Outubro 01 2010
A foto não foi preparada, mas serve para ilustrar os efeitos do tempo e do abandono sobre os vestígios de uma época não muito distante, provavelmente a caminho de se perderem para sempre.
Quem mandou fazer esta fachada teve gosto e cuidado. Mas os materiais não são perenes. E os elementos da Natureza não perdoam.

Nesta outra, parecem existir sinais das possíveis razões desse abandono. Podem ver-se nas traseiras construções mais recentes e decerto com melhores condições de habitabilidade. O painel solar indica, pelo menos, que houve certas preocupações de conforto. A casa está situada numa rua que é simultaneamente uma estrada nacional. Até há poucos anos, antes da entrada em funcionamento da auto-estrada A23, o tráfego era aqui muito intenso. O ruído não devia deixar descanso aos moradores. Tiveram de "fugir para o quintal".
publicado por Luiz às 11:31

Agosto 30 2010

 

 

 

Esta é uma foto da albufeira da Barragem de Belver, obtida no próprio paredão que também serve de ponte, numa tarde sem vento, fazendo da lisura das águas um espelho para a paisagem.


A data oficial da conclusão da barragem é o ano de 1952, tendo ficado com a designação de Barragem de Belver, possivelmente devido ao facto de a maior parte da albufeira criada coincidir com o limite sul desta freguesia, e também por ser esta uma das localidades mais próximas.


De há uns anos a esta parte, tem-se verificado que a Câmara de Mação, em cujo território (freguesia de Ortiga) se encontra a quase totalidade das instalações da Barragem, passou a utilizar sistematicamente a designação de "Barragem de Ortiga", no que é acompanhada por algumas instituições ligadas ao turismo na zona, nomeadamente a Região de Turismo dos Templários.


A utilização de uma designação nova e, pode-se dizer, não oficial, omitindo sistematicamente aquela que já existia e está consagrada, pode parecer estranha, e é susceptível de diversas interpretações.


A mim, parece-me que se trata de um assomo de brios bairristas, reivindicando para si um nome (ou renome) que talvez sintam ter-lhes fugido. E estarão tentando consagrar, pelo uso repetido, a designação que mais lhes convém.

 

E porque os brios bairristas atingem a todos (mesmo aos que, por esta razão ou por aquela conveniência, se coíbem de os manifestar), aqui fica também o meu desabafo.


Ao longo do tempo, sucessivas reorganizações administrativas fizeram com que a hierarquia relativa das diversas povoações sofresse mudanças radicais. Na última dessa reorganizações, a freguesia de Belver deixou de pertencer ao concelho de Mação, do qual fizera parte durante cerca de 60 anos.


Em tempos mais recuados, a própria vila de Belver foi sede de concelho, entre 1518 e 1836, ficando, a partir desta data, integrada no concelho de Mação. Transitou em 1898 para o então restaurado concelho de Gavião.


O que é que isto tem a ver com aquilo? Responderão os mais puristas que, em rigor, nada.


Mas nem tudo nesta vida é rigoroso e exacto, e muito menos  quando as opiniões são divergentes...


Agosto 24 2010

Há já alguns anos, numa deslocação relacionada com a apicultura (deixavam-se cortiços aqui e ali, com a finalidade de recolher enxames), encontrei este local.

Hoje revisitei-o, com o objectivo de captar umas fotos, em promessa feita a um amigo.

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Trata-se de um afluente da margem esquerda do Tejo, a Ribeira de Alferreireira, na transição do curso alto para o médio, ainda na zona granítica, muito antes das impressionantes escarpas xisto-quartzíticas que caracterizam o curso inferior.

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O local não fica muito afastado da EN-118,  mas é preciso dar uma pequena volta para poder levar o carro até uns escassos 200m. Então há que descer a pé uma pequena ladeira e, no final,  saltar os blocos de granito, ou passar entre eles desviando a vegetação, por entre a qual é evidente a presença dos trilhos de javalis.

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A ribeira "desapareceu" por entre o amontoado de blocos de granito que vão caindo para o leito escavado.

Os blocos vão-se fracturando, deixando entre si fendas profundas às quais há que prestar atenção.

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Embora o granito seja uma rocha extremamente dura, não é muito resistente à erosão na presença da água.

Ao longo de milénios, o chocalhar constante dos calhaus de quartzo, extremamente duros, arrastados pelas enchentes, foi desgastando lentamente os blocos, moldando formas suaves.

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Os remoinhos de água arrastando calhaus foram criando cavidades circulares que, com o tempo, se converteram em verdadeiros poços.

O acesso ao local pode ser bastante difícil, sendo necessário escorregar por uma estreita fenda inclinada.

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No interior, debaixo dos blocos rochosos, reinam as sombras e o frescor proporcionado pela presença da água.

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Mas ao olhar para trás, para a entrada, o clarão ofuscante não deixa esquecer que, lá fora. o sol aperta.

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As águas da ribeira, agora sem corrente, estão lá em baixo, na fenda escura.

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Um poço quase perfeito.

Este e o da imagem seguinte estão separados por uma parede de pequena espessura.

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Este é possivelmente mais antigo e encontra-se a um nível superior. Falta-lhe já uma das paredes, entretanto desgastada. O fundo está atulhado com o resto dos calhaus que lhe talharam a forma.

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Depois há que voltar a sair por ali, rastejando pela fenda inclinada.

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Finalmente, um último olhar pela paisagem, antes de prosseguir para o seguinte destino do dia.

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