Recompilação, reduzida e adaptada, do excelente trabalho de recolha de vocábulos e expressões populares,apresentado pelo Sr. João Manuel Maia Alves, no seu blog MOURISCAS - TERRA E GENTES, a quem agradeço a gentileza de me ter autorizado o seu uso.
Recomendo a leitura deste blog, não na simples forma de agradecimento, mas por entender que se trata de um importante testemunho das realidades, presentes e passadas, daquela terra.
Mouriscas e Belver distam escassos quilómetros entre si. Estão na mesma margem direita do Tejo, separadas apenas pela freguesia da Ortiga. É pois natural que as gentes de ambas as terras tenham partilhado muito linguajar comum.
Retirei todas aquelas expressões que não me recordo de ter ouvido na minha terra, a maior parte delas por fazerem referência expressa a realidades locais..
De resto, as alterações efectuadas são de pormenor, acrescentando algum sentido imposto pelo uso que eu conheci.
ACORDAR MOSCAS QUE ESTÃO A DORMIR – Trazer à conversa assuntos que não devem ser recordados ou discutidos. Relembrar assuntos que não convém referir. (Não lhe fales das zangas que ele teve com a família. Não acordes moscas que estão a dormir.)
ADEUS – Cumprimento de encontro de pessoas, que pode também ser usado nas despedidas. (Adeus comadre! Há muito tempo que a não via. Estimo muito vê-la.)
ADOQUE (pronunciado àdoque) – Atabalhoadamente, à pressa e imperfeitamente, de qualquer maneira. (Esta parede ficou muito mal rebocada. É mesmo um trabalho feito adoque.) Depois da revolução de 25 de Abril de 1974, muita gente ficou confusa porque começou a ouvir falar de coisas como “exames ad hoc” e “comissões ad hoc”, expressões que pareciam não ter relação com trabalhos feitos à pressa e mal. “Ad hoc” é uma expressão latina que significa “para isto”, isto é “para determinada função ou missão”.
AINDA BEM NÃO – Brevemente, dentro de pouco tempo. (Ainda bem não é noite. Ainda bem não é Inverno. Ainda bem não é a hora do comboio.)
ALBARDAR – Aturar, suportar. (Ele albarda aos filhos tudo o que eles querem fazer.)
AMOROSO – Suave, agradável (falando do tempo). (De dia esteve muito calor; mas agora o tempo está amoroso e apetece estar na rua.)
ANDAR AOS SABIDOS – Deixar de trabalhar e passar a viver rotativamente em casa de parentes. (Ele deixou de se ver; anda aos sabidos por casa dos filhos.)
ANDOR! – Usado para mandar alguém embora ou para indicar que deve ou pode ir-se embora. (Ele não se sente cá bem e quer voltar para a terra dele? Então, andor! Não faz cá falta nenhuma.)
ANECRAL – Lacrau. (Foi mordida por um anecral que estava debaixo dum molho de feno.)
ANECRIL – Alecrim. (Noutros tempos quando nascia uma criança faziam-se defumadouros de anecril para afastar maus espíritos.)
ARGANEL – Gancho metálico espetado no focinho do porco para o impedir de fossar (também abreviado para anel).
ARMADO AO DINHEIRO – Diz-se de objecto posto à venda e de utilidade duvidosa. (Acho que essa máquina de fazer bolos é uma coisa armada ao dinheiro.)
ARRANÇAR – Portar-se como rançoso. (Quando soube que tinha de pagar a dívida do filho, fartou-se de arrançar.)
ARRANÇAR – Ralhar ou zangar-se. (Andam sempre a arrançar um com o outro.)
ARRANHOSAR – Portar-se como ranhoso. (Não deu nada para o peditório e ainda se fartou de arranhosar.)
ASTRO – Firmamento, céu. Abóboda celeste. (Ontem à noite o astro estava todo vermelho.)
ATAR UM CALDEIRO AO RABO – Receber com hostilidade, afugentar. Esta expressão provém do cruel costume de se atar um caldeiro (balde de lata) à cauda dum cão para o afugentar de modo a não voltar a um lugar. (Que é que ele cá veio fazer? Deviam era ter-lhe atado um caldeiro ao rabo.)
ATÉ DEPOIS! – Até uma data posterior, até mais ver, até à próxima, adeus. (Estimei vê-lo com saúde. Até depois!)
ATENTAR – Aborrecer, importunar. (Quando ele era pequeno, atentavam-no com a alcunha de “Zé da Burra”.)
ATIRAR FOGO – Gabar-se. (Tem-se fartado de atirar fogo com a nomeação do filho para um cargo importante.)
AVENTAR – Atirar fora. (Aventa isso, que está sujo. Ele aventou para a rua uma data de cadeiras velhas.)
AVEZADO, AVEZAR – Acostumado, habituado; acostumar, habituar. (Ele está mal-avezado; não quer trabalhar. Este cão avezou-se a esta casa e está sempre aqui.)
BARATA A FEIRA – Expressão para indicar que qualquer coisa custou pouco dinheiro. (Esta boina custou 50 escudos. Barata a feira!...)
BARBILHO – Bocado de madeira colocado na boca de borrego ou cabrito e preso atrás da cabeça para o impedir de mamar durante o desmame.
BARDA – Mancha no céu. (Ontem havia uma barda vermelha no céu. Tenho a impressão de que vamos ter mais calor.)
BELICOSO – Exigente com a comida. (Este miúdo é belicoso com a comida. Em tudo põe defeitos e não gosta de quase nada.)
BOCHA – Palavra usada para chamar um cão. (Bocha, bocha, bocha! Anda cá bocha.) Cão, falando com crianças. (Faz um festinha ao bocha.)
BOM ARRANJO – Ter um bom arranjo era ter bens. Como comentário a namoros e casamentos era habitual ouvir-se frases do género “os dois têm um bom arranjo”.
BORCELO – Bocado que se partia de uma caçarola de barro ou alguidar. O remendo era feito com dois ou três gatos. (Tenho que guardar este borcelo para mandar pôr ao caldeireiro quando ele por aqui passar
BORRACEIRA – Nevoeiro. (Está uma borraceira que não deixa ver nada.)
BOTICA – Farmácia, medicamento. Estes significados estão hoje esquecidos. (Ele tem andado a tomar botica para a doença. Comprei na botica um remédio para a tosse.)
BOUZILHÃO – Inchaço. (Caiu sobre uma pedra e ficou com um bouzilhão nas costas.)
CABEIRO – O mais afastado. (Isso está no quarto cabeiro.)
CABRESTO – Indivíduo que desinquieta outros para irem divertir-se. (Precisas de estudar e devias ficar em casa a estudar, mas já aí estão os cabrestos para te levaram para ir ver o jogo da bola…)
CAÇOLA – (de caçarola)Vaso de barro estreito em baixo, largo em cima e pouco alto, usado para cozer ao lume.
CAÇOLADA – Conteúdo duma caçola. (Nos casamentos de antigamente faziam-se grandes caçoladas de carne. Aquele gato dava uma grande caçolada.)
CAFÉ – Primeira refeição, pequeno-almoço. (Ainda não comeste nada e deves estar com fome. Anda beber o café.)
CAGARRACHO – Pequeno. (É um cagarracho. Não sai ao pai, que é um homenzarrão.)
CANGALHADA – Confusão, enredo, assunto mal encaminhado. (Já sabia que isto ia acabar mal… Olha a cangalhada!...)
CANGALHADA – Palavra de uso muito corrente, significando coisa, em geral de pouco valor. (Mas que cangalhada é essa? Ele anda sempre a comprar cangalhadas para casa; algumas não servem para nada.)
CARUJAR, CARUJO – Cair chuva miudinha, chuva miudinha. (Tem estado a carujar toda a manhã.)
CHAPÉU-DE-CHUVA SEM VARETAS – Pessoa de pouco préstimo. (É muito vaidosa, mas não passa dum chapéu-de-chuva sem varetas.) Também usado no sentido de atrevido.
CHAZADA – (pron.: chàzada) Reprimenda. (Deu uma chazada aos vizinhos por não o terem deixado dormir com o barulho da festa.)
CHIA – Fanfarronice, lábia, conversa. (Ele tem muita chia; gostava era de o ver a trabalhar.)
COM OS BOFES NA MÃO – Cansado. (Quando começou a chover desatou a correr e chegou a casa com os bofes na mão.)
CONVENIÊNCIA – Usado para designar exactamente o contrário, algo que vai trazer maçadas ou não tem vantagens. (Fulano procurou por ti; deve ser para alguma conveniência. Vi a noiva de fulano; não deve ser grande conveniência.)
COPA – Gente de má qualidade. (Copa daquela não faz cá falta. Ainda bem que se foram embora. Aquilo era copa ruim.)
COPA – Roupa. (A noite passada estava muito frio. Tive de pôr mais copa na cama.)
CORRECÇÃO – Actividade de corrécio. (Ele passava o tempo das férias de verão na correcção.)
CORRÉCIO – Vadio. (Quando ele era novo, era um corrécio; ia a todos os bailes e festas das terras à volta.)
DAR BOAS ÁGUAS – Dar esperança, uma perspectiva optimista. (Ele foi perguntar ao cunhado se lhe queria comprar a casa. Parece que o cunhado lhe deu boas águas.)
DAR COM (ALGUMA COISA) EM BARREIRA – Resolver, solucionar. (É complicada esta avaria. Não sei se conseguiremos dar com isto em barreira.)
DAR OS DIAS SANTOS - Mandar. (Lá em casa ela é que dá os dias santos.). A origem da expressão deve vir de se pensar que o padre é que decidia que dias se deviam guardar como santos.
DE RANGAMALHO – De rojo, arrastando pelo chão, aos trambolhões. (Ele trouxe a lenha de rangamalho.)
DERREGAR - Derreter. (Este acúcar está muito duro; não se derrega no café. O sol derregou o gelo.)
DESALVORAR – Fugir. (Não assustes a mula, senão ela desalvora.)
DESASSEMELHO – Com aspecto ridículo. (Que desassemelho é esse? Vens aí com a roupa cheia de palha. Nos casamentos de gente fina aparecem sempre muitos desassemelhos.)
DESENCABRESTAR – Desinquietar para ir a divertimento. (Bem precisas de estudar, mas já aí estão os do costume para te desencabrestar para a bola.)
DESENCULATRAR-SE – Sair da posição correta. (Os alcatruzes desenculatraram-se e a nora não os consegue puxar.)
DESINQUIETAR – Levar ou tentar levar alguém a proceder de certo modo. (Desinquietaram-no para trabalhar no Porto. Ele desinquietou-me para ir a uma excursão ao Porto. Devia estar a estudar, mas vieram desinquietá-lo para ir jogar a bola.)
DESINQUIETO – Irrequieto, traquinas. (É um miúdo muito desinquieto.)
DIABALMA – Homem. (Olha para aquele homem. Que grande diabalma!) (Vinha ele e outro diabalma mais ele.)
DIABO, DIABA – Fulano, fulana. (Ele casou com uma diaba de Alter do Chão.) Estas palavras não têm sentido pejorativo, mas usam-se de modo muito informal. Ninguém diria numa audiência, por exemplo, que era casado com uma diaba de Lisboa.
É COMO A CALDEIRA DO INFERNO; QUANDO NÃO ESCALDA, MASCARRA – Usa-se para indicar que alguém anda continuamente a praticar maldades ou traquinices.
É COMO LAVAR A CARA A UM BURRO – Ser inútil. (Ralhar com ele ou dar-lhe conselhos é como lavar a cara a um burro. Não tem emenda.)
É COMO O OUTRO – Não tem importância. (Lá que me chamasse tonto é como o outro... Agora chamar-me ladrão é que não posso aceitar.)
É IMPORTANTE! – Exclamação usada para indicar espanto. (Ele trata mal toda a gente e ainda se queixa de ninguém gostar de falar com ele. É importante! Olhem que isto é importante! Deixou os animais toda a noite a apanhar chuva.)
EM ACÇÃO DE – Pronto para (matar para alimentação, semear, colher, etc.) (O porco está quase em acção de matar. A azeitona já está em acção de apanhar.)
EM BEM NÃO - Desde que não; enquanto não. (Em bem não lhe calhando as coisas ao jeito, farta-se de ralhar.)
EMPEGILHO, EMPEGILHAR – Estorvo, estorvar. (Estás aí no chão feito empegillho. Sai daí, empegilho, para a gente passar.) O mesmo que empecilho.
ENCAFUAR – Meter. (Desde que se reformou passa a vida encafuado em casa. Veio viver para cá, mas ninguém o vê porque se encafuou lá no buraco.)
ENCRENCA – Pessoa velha ou fraca. (Já não presto para nada; estou feita uma encrenca. Não tens forças nenhuma, minha encrenca!...)
ENDIREITOS – Direcção, proximidades. (Quando cheguei aos endireitos do moinho vi um bando de patos a voar.)
ENTREGAR – Manter-se em pé ou na posição vertical (Estava tão bêbado que nem entregava em pé. Este cântaro está gasto por baixo e não entrega.)
ENTRUNFAR – Amuar, ficar aborrecido. (Ele ficou entrunfado quando o pai não o deixou ir jogar a bola no domingo passado.)
ERVILHANA – Amendoim.
ESCALAMEJAR – Escaldar. (Não metas as mãos nesta água que está a escalamejar.)
ESCALAMEJAR – Estar excessivamente salgado. Este bacalhau não se pode comer. Está a escalamejar com sal!)
ESPOJINHO – Pequeno remoinho de vento nos meses de verão, muitas vezes atribuído a almas desencarnadas. Sítios onde se tinham enforcado pessoas eram considerados atreitos a espojinhos. Pequeno tornado.
ESTAFAR – Gastar mal gasto, esbanjar. (Em pouco tempo estafou todo o dinheiro que o pai lhe deixou.)
ESTAR DE VOLTA DE – Estar ocupado com. (Ele tem estado toda a manhã de volta do motor, mas ainda não conseguiu pô-lo a tirar água
ESTRAFEGA – Trabalheira, actividade que envolve muito trabalho e canseira. (Dantes os casamentos eram uma grande estrafega.)
ESTUDO CABANAL – Boémia, boémia estudantil. (Alguma vez ele fez o liceu! O estudo dele foi o estudo cabanal.)
EXTRAVAGANTE – Gastador. (É um extravagante. Mal recebe dinheiro gasta-o logo.)
FALAÇADA ou FALAZADA– Ruído de pessoas a conversar. (Toda a noite se ouviu uma falaçada na rua.)
FALAR PARA – Namorar. (Ele fala para a prima. Os pais não gostam do namoro, porque queriam que o filho casasse com uma mulher rica.)
FAZER FIGURAS – Fazer uma figura ridícula. (Esse fato tem nódoas e falta de botões. Não andes para aí a fazer figuras.)
FEIJÃO-PRETO – Na maior parte do país chama-se feijão-frade.
FEZES – Problemas, complicações. (Os filhos são uns bêbados. Só lhe têm dado fezes.)
FILHOTE – Natural, oriundo. (Ele não nasceu cá. É filhote de Tramagal.)
FOXE – Lanterna eléctrica. (Noutros tempos, antes da iluminação pública, um foxe era muito útil para andar de noite. Antigamente uma das ambições dos miúdos era possuírem um foxe, muito útil para encandear os pardais, nas caçadas nocturnas.). Também costumava chamar-se uma pilha (por funcionar a pilhas).
FRUTO – Coisas semeadas numa horta. (O fruto está cheio de sede. É preciso regá-lo bem.)
FULESTRIA – Proeza. Usa-se ironicamente, isto é para diminuir o valor do que alguém fez ou conseguiu. (Que grande fulestria ele ter comprado a pronto aquela casa grande! O pai deixou-o cheio de dinheiro.)
GABAR – Achar que se deveria fazer. (O que eu gabava era obrigá-lo a trabalhar para pagar o que roubou.)
GALHARDO – Usado em situações caricatas ou difíceis, em que bonito ou lindo também se poderiam utilizar. Por exemplo, um indivíduo está molhado, bêbado ou sujo e alguém comenta ‘estás galhardo!´. Ou então um carro não pega e está atolado e alguém diz ‘ela está galharda!’(ela, a situação).
GRAVE – Exigente com a comida. (Ai, não comes o feijão? És muito grave…)
IGNORAR – Estranhar, repudiar. (Ignoro aquela maneira de proceder.)
INFLUÊNCIA – Entusiasmo. (Depois da tropa ganhou influência pelos estudos e fez o liceu em poucos anos.)
JÁ NÃO OUVIR CANTAR O CUCO – Viver pouco mais tempo. Não durar até ao fim do inverno. (O canto do cuco, repetitivo e agudo – cucu, cucu, .... - ouve-se no fim do inverno, começo da primavera. Há um provérbio que diz “Dia de S. José e o cuco sem vir, ou ele é morto ou está para vir.”) (Ele está muito doente. Já não deve ouvir cantar o cuco.)
JUDEU, JUDEU MALINO – Miúdo traquinas. Note-se que isto é usado sem qualquer intenção de ofender os judeus. (Este judeu não deixa nada sossegado. Está quieto, oh judeu malino!)
JUDIARIA – Traquinice. A palavra é usada sem qualquer intenção de ofender os judeus. (Quanto se juntam muitos moços pequenos, começam logo a fazer judiarias.)
LAMBANÇA – Barulheira. (Toda a noite fizeram uma grande lambança e não deixaram dormir as pessoas. Diz a toda a hora que tem um carro como ninguém tem; acho que já é lambança a mais.)
LAMBÃO, LAMBOEIRA – Preguiçoso. Preguiça. (Nunca fez nada. É um lambão. Em vez de cuidar das fazendas que lhe deixaram entregou-se à lamboeira.)
LANZEIRA – Preguiça. (Estou com uma lanzeira tão grande que nem me apetece levantar-me.)
LAVADURA – Restos de comida a que se acrescentavam coisas como bocados de abóbora e que serviam de alimentação dos porcos. (Este porco come num esfregar de olhos a lavadura que lhe dou.)
LAVARINTO – Barulheira, grande barulho. (Ele bateu na mulher. Ralharam. Os filhos choravam e berravam. Foi um lavarinto que acordou toda a gente.)
LEVAR O CABO – Morrer, secar. (Noutros tempos muitos porcos levavam o cabo por causa de doença. Com o calor as flores levaram o cabo.)
MAL-ANDAMOSO. Aplica-se a um caminho para indicar que se anda nele com dificuldade. (Dantes este caminho era mal-andamoso, principalmente na época das chuvas.)
MALTÊS – Vadio. (Quando ele era estudante, era um maltês; corria as terras à volta e raramente estava em casa durante as férias.)
MALTESARIA – Actividade de maltês. Grupo de malteses. (Ele raramente pára em casa; anda na maltesaria.)
MANEIRAS – Um pouco, um tanto. (Ontem choveu maneiras. Ela canta maneiras, não é grande artista.)
MANIENTO – Caprichoso, vaidoso. (É um miúdo muito maniento com o comer; não gosta de quase nada. Está um grande maniento depois de o filho ter entrado para a política.)
MARESIA – Tempo nublado e húmido em manhã da época de tempo quente. O verdadeiro significado da palavra é cheiro do mar quando a maré baixa. (E que tal esta maresia? Deixa, que daqui a bocado já aparece o sol e vamos ter outra vez um dia de calor. Manhã de maresia, tarde de calmaria.)
MARRADA – Espaço que fica por lavrar junto das árvores quando o terreno é lavrado com animais ou mesmo com tractor. Após a lavoura as marradas tinham de ser cavadas. (O pai não gostou das notas dele no colégio e pô-lo a cavar marradas.)
MASSEIRÃO – Pia escavada numa pedra de granito, feita de cimento, ou ainda de madeira, usada para colocar o comer dos porcos.) (O porco ainda não comeu tudo o que deitei no masseirão.)
MEDO – Aparição nocturna. (Noutros tempos diziam que aparecia aqui um medo.)
METER VENENO – Deteriorar relações, dando em segredo a uma ou mais pessoas informações ou incitando a certas acções. Fazer intriga.(Ela e a mulher começaram a dar-se mal quando a mãe dele foi morar com eles e começou a meter veneno.)
NA PONTA DA UNHA – Bem. (Não lhe falta nada; a vida corre-lhe na ponta da unha. Ficou bem feito, sim senhor. Ficou na ponta da unha.)
NÃO DAR CARREIRA DIREITA – Não se portar bem. (Ele não dá carreira direita. Trabalha pouco e gasta tudo em bebida.)
NÃO MERECE – Não tem de quê. Resposta a agradecimento. (Obrigado, tia Rosária, pela erva para os coelhos. Não merece, Maria.)
NÃO OUVES? NÃO OUVE? – Não é exactamente uma pergunta, mas uma introdução ao que se vai dizer ou perguntar, enfatizando.. Equivale a “escuta o que te digo” ou “escute o que lhe digo”. (Não ouve? Se fosse a si, comprava a casa do seu tio. Não ouves? Aquelas partilhas vão deixar todos zangados.)
NINGUÉM CUSPA PARA O AR – Ninguém diga que não lhe pode acontecer o mesmo, ninguém diga desta água não beberei. (Hoje é uma desgraça ter um filho drogado, mas ninguém cuspa para o ar.)
O QUER QUE É, O QUER QUE FOI – Coisa ou acontecimento indefinido, no presente ou no passado, respectivamente. (Ontem parece que houve brigas e discussões nas festas. Sim, ouvi dizer que houve lá o quer que foi. Parece que o seu pai quer que lhe vá lá fazer o quer que é).
OFENDER – Partir, romper. (Caiu mal e não lhe dói nada mas pode ter ofendido alguma coisa lá por dentro.)
OGAR (pronúncia: ògar) - Ficar perturbado ou incomodado por não conseguir comer, beber ou ter algo que se deseja. (Dê um bocadinho de bolo à menina para ela não ogar. Até ogavas se não comesses o bolo todo.) Regar ou borrifar com água. (É preciso ogar esta roupa quando estiver quase seca.Vai ogar os canteiros, antes que morram à sede!)
OLHAR CONTRA O GOVERNO, OLHAR CONTRA O SALAZAR – Ser vesgo ou estrábico, isto é não ter os olhos alinhados um com o outro.
OPOR-SE – Dispor-se, dar-se ao trabalho de. (Ainda não me opus a fazer isso. A gente às vezes não faz uma coisa mas não é por falta de tempo; é naquilo que a gente se opõe.)
ORDEM – Autorização. (Hoje não tens ordem de sair daqui. Quem é que te deu ordem de usares o meu relógio?)
PALHAÇA – Queda. (Ela escorregou e deu – ou caiu *- uma grande palhaça.) *É frequente o uso da redundância.
PANCADISTA – Que tem pancada, mania, excentricidade. (Para onde quer que vai transporta à mão uma mala grande. Usa sempre um chapéu com abas muito grandes e óculos escuros. É pancadista de todo.)
PANTAR – Pôr. (No meu tempo trabalhava-se desde que o sol nascia até que se pantava.)
PAPEL DE COMÉDIAS – Situação cómica. (Passaram ontem o dia a discutir e chamar-se ladrões uns aos outros. Foi um papel de comédias.)
PAZ DE ALMA – Pessoa sossegada e pacífica. (É um paz de alma. Para ele está tudo bem.)
PEGANHOSO – Que pega (com). (Deixa o teu irmão sossegado; não sejas peganhoso.)
PEGAR (COM) – Meter-se, implicar, caçoar. (Depois de o clube dele perder o campeonato, toda a gente pegava com ele e dizia que era um clube
de coxos.)
PENDORA – Cacho de uvas pendurado para ser consumido mais tarde, às vezes passados vários meses depois da vindima.
PENSÃO – Trabalho, preocupação, cuidado. (O filho aconselhou-o a ter uma vaca, mas ele já tinha cabras e ovelhas e não quis arranjar mais uma pensão.)
PERIGO – Raio, no sentido de descarga eléctrica entre uma nuvem e o solo. (Caiu um perigo naquela oliveira e rachou-a.)
PROPÓSITO – Modos apropriados. (Senta-te com propósito. Não tens mesmo propósito nenhum.)
PUXAR PARA – Hospedar-se, ficar em. (Quando ele vem a à terra, puxa para casa do cunhado.)
QUARTA – Pequeno cântaro com asa. (Esta quarta faz a água muito fresca. Quando ele ia para o trabalho, levava sempre uma quarta com água fresca.)
QUE JEITOS? - Usa-se para indagar em que circunstâncias ocorreu um acontecimento. (Ele ontem partiu um braço. Então, que jeitos? Escorregou e caiu mal.)
RANÇOSO – Rabugento. (É um rançoso que não se pode aturar, sempre a queixar-se dos filhos.)
RANHOSO – De fraca qualidade, rabugento, de mau feitio. (Fez um trabalho ranhoso. É um ranhoso; ninguém gosta de trabalhar com ele.)
REZAM – Consta, dizem. (Rezam para aí que eles vão casar depressa. Não rezam bem da doença dele.)
SAPATA- Pata, pé, mão, sendo bastante grosseiros os dois últimos significados. (As sapatas das galinhas ficaram marcadas neste chão de cimento. O sogro proibiu-o de pôr as sapatas lá em casa. Não pegues no livro com as sapatas sujas.)
SARDINHEIRO – Homem que vendia peixe em venda ambulante. (Noutros tempos as pessoas tinham que se levantar cedo e esperar pelo
sardinheiro para comprar peixe.)
SER MAL-AMIGO (A) DE – Não gostar de, não apreciar. (Sou mal-amiga de carne de porco.)
SONARENTO – Mole, pouco ativo, sonolento. (Trabalha muito devagar; é um sonarento. O calor põe-nos sonarentos.)
SONGA-MONGA – Pessoa de poucas falas e que mostra pouca cordialidade. (Passa aí e quase não fala com ninguém. Está feito um songa-monga.)
SONHAR COM LADRÕES – Pensar em fantasias, sonhar com coisas pouco prováveis ou impossíveis. (Ele diz que o futuro sogro lhe vai comprar um carro do melhor que há. Deve estar a sonhar com ladrões.)
SORTE – Quinhão em partilhas. (Diziam que aquelas partilhas iam ser difíceis, mas afinal cada um ficou contente com a sua sorte. Já vendeu a sorte dele.)
TALOCA – Buraco. (Há pássaros que fazem o ninho em talocas de árvores. Este comer mete ele na taloca dum dente.)
TANGANHO – Ramo cortado de árvore e seco. (Fez uma fogueira com tanganhos para se aquecer.)
TESTÓ – Palavra usada para enxotar um cão. (Testó! Sai daqui cão!). Também usada para indicar rejeição duma proposta ou atitude. Equivalente mais ou menos a “dar para trás”. Aliás, muitas vezes a palavra “testó” usada neste sentido é acompanhada dum movimento para trás da mão. (Queria que lhe emprestasse dinheiro e pagava só para o ano. Testó!)
TOMATA – Tomate. (Estas tomatas são boas para salada.)
TREMPE – Pessoa desajeitada. (Não fazes nada com jeito. Estás cá uma trempe.)
TRIPEÇA – Banco de cortiça sem pés e com seis lados quadrados ou rectangulares.
TRUGIA – Coisas, coisas sem valor. (Esta casa está cheia de trugia. Mas que trugia é esta?)
UNTAR AS UNHAS – Gratificar para obter favor. (Viu-se atrapalhado para conseguir os documentos. Só quando untou as unhas a um funcionário é que o pedido começou a andar.)
VAI (VÁ) BALHAR (bailar) COM O DONO – Não me maces (mace). Vai (vá) à fava. (Oh pá! Deixa-me em paz. Vai balhar com o dono! Ele diz que tu não tens habilidade para árbitro de futebol. Eu quero que ele vá balhar com o dono.)
VARIADO, VARIAR – Tonto, ficar tonto. (Achas que o preço do azeite vai baixar? Deves estar variado. Ficou variado com tanto dinheiro que recebeu da lotaria. Bebeu dois copos de aguardente e já está a variar. Depois da morte da mulher ficou variadinho de todo.)
VIANDA – (também pronunc. vienda)Comida dos porcos. O mesmo que lavadura. (Este porco come um tigelão de vianda enquanto o diabo esfrega um olho. O porco deve estar cheio de fome. Vou dar-lhe esta vianda.)
VIVOS – Animais domésticos. (Deixei os vivos todos tratados.)